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Quinta-feira, Dezembro 6
Mary Ju, que está sempre atrás de um “homem bom”, só se depara com homens ruins. Esta é a realidade dos fatos, pelo menos é o que ela conta.
Procura por todos os lados, roda 359º que é pra não parar no mesmo lugar , quase fica vesga, e nada! Mas, quando aparece alguma coisa no horizonte nebuloso de Mary ela não perde a oportunidade, mesmo que seja mais uma pra somar à lista interminável do que se poderia chamar de ciladas do destino. E Mary Ju, do alto dos seus muitos aniversários, ainda cai nas arapucas.
Depois da experiência com o rapaz da informação do ônibus em que pensou, por alguns minutos – poucos! –, que estaria diante de sua alma gêmea, ela recolheu; colocou a barba que não tem de molho o suficiente para tirar todos os resíduos das relações iniciadas e, impreterivelmente, mal terminadas.
Livrou-se do ranço, das sombras, do mofo de velhas cenas vividas com atores diferentes.
Praticamente, o mesmo texto, o mesmo quadro, o mesmo plano, e ela sempre ali, personagem de todas as apresentações. Ufa! Deu pra cansar, e ela cansou, mas, Fênix, eis que ressurge com toda a pompa e plumas para protagonizar mais um dos inúmeros capítulos de A vida de Mary Ju.
Desta vez, um colega de profissão caiu na sua rede e ela, na maior ligeireza, pescou. Ou melhor, tentou, porque êita peixinho danado!! Ameçava e ameaçava morder a isca, mas na hora H só beliscava. E belisca aqui, aperta dali, escorrega de cá e aquela falta de decisão do peixe começou a irritar a Mary, que não é nordestina, mas se pega numa peixeira é ruim de largar.
O primeiro contato foi para tratar de possível parceria profissional, mas por que não tratar de outras parcerias mais prazerosas? Pronto, foi o bastante para que os neurônios de Mary entrassem em ebulição e ela se animasse a tal ponto de confundir sardinha com tubarão e, num piscar de olhos, vislumbrar no colega de profissão o parceiro de todas as horas. Procurou a aliança no dedo e, nada. Sinal verde!
O segundo encontro foi aguardado com o coração aos saltos e forte esperança no coração. Era ele o homem anunciado pela cartomante, que ela confundira com o babaca da informação. A pontualidade britânica do moço encantou mais ainda a Mary Ju, que resolveu lançar o seu olhar felino, toda lânguida para o peixão, que, na verdade, não passava de sardinha. Fudevú no cassarolê! A sardinha, temendo ser a refeição predileta da gata, ficou com medo de ser prato que se come com a mão e dispensa talheres, e não sobrar nem osso.
“Nada de banquete”, pensou o moço temeroso da voracidade de Mary, e ia só tapeando com entradas a fome dela de tubarão.
Rolaram mais dois dates e a sardinha só ficava na promessa de dias mais fartos e como para Mary promessa é dívida, não conversou. Partiu pra galega no encontro seguinte:
- "Escuta aqui, meu amigo, você só vai ficar nessa? Não tenho tempo a perder, rapaz. Ou trepa ou sai de cima", disse, com a sinceridade que lhe é peculiar.
De cima? Quem dera...já seria bom demais. Nem isso! O moço foi tentando se explicar: era um romântico incorrigível e idealizara a primeira vez em local apropriado, e não num escritório, sem o cenário, sem clima propício. Estava só esperando uma oportunidade de viver uma noite com ela embalada pelo Rei.
"Oportunidade?? Clima propício???", pensou ela que, aquela altura do tesão, com o que menos se importava era com a cama redonda e os espelhos. Aliás, a lembrança era de uma experiência quase catastrófica vivida muitos anos atrás, quando foi arremessada de uma destas giratórias num motel da Barra da Tijuca. Cômico não fosse trágico, pois Mary saiu do arremesso cheia de escoriações. Ficou um roxo só!
O farsante ainda ligou duas vezes, mas Mary Ju não atendeu. Estava cheia de conversa fiada, e num passe de mágica, capaz de transformar príncipe em sapo, concluiu que o cara, o puta profissional com quem viajara em altas – e baixas! – parcerias, era um farsante, um tremendo 171 que, na verdade, só queria se aproveitar do escritório e do diploma dela pra se dar bem! O cara não tinha diploma, estava certa disso. Pensou em denunciar, mas desistiu. Estava de saco cheio de histórias de sardinhas e o que ela mais queria agora era um badejo suculento em forma de vizinho que avistara, na véspera, na garagem do prédio onde tem o escritório. E a cabeça só pensava em completar as respostas para o lide - Onde? Como? Quando? -, já que "por quê”, "quem" e “o quê” ela já sabia, e só ia esperar o melhor momento para jogar a rede.
por zelda
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Sexta-feira, Novembro 9
Como um eco
Não tinhas nome.
Existias como um eco do silêncio.
Eras talvez uma pergunta do vento.
(Albano Martins)
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Descobri o poeta português Albano Martins por acaso. Amei a poesia.
Pequenas coisas
Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer em voo raso os campos
sem pousar os pés no chão.
Abrir um fruto e sentir
no ar o cheiro a alfazema.
Pequenas coisas, dirás,
que nada significam perante
esta outra, maior:
dizer o indizível.
Ou esta: entrar sem bússola
na floresta e não perder o rumo.
Ou essa outra, maior que todas
e cujo nome por precaução omites.
Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.
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Terça-feira, Março 6
...
Se eu soubesse que seria a última vez,
te beijaria a alma e não somente a boca.
Te sufocaria num abraço,
e te devolveria o oxigênio num beijo único,
inesquecível.
Não, não seria aquele último beijo que te dei,
morno, sem efeito Big Bang,
capaz de encobrir na memória os tantos outros cheios de emoção.
O último, o pior deles...
Se eu soubesse que acabaria ali,
teria antes acariciado os seus cabelos como fiz tantas vezes
em meio a sonhos, sono, suspiros e sexo.
Teria segurado seu rosto e olhado dentro do seus olhos,
e resgatado, no fundo deles,
a luz que se acendia pra mim.
Paralisaria o tempo ali,
eternizando aquele brilho no meu olhar.
Se soubesse que era o final,
teria me deixado aquecer no seu corpo,
a pele, o coração, a alma,
pra jamais esquecer do calor que explicava tudo.
Teria amado você pela última vez como se fosse a primeira.
Sem erros, sem acertos, sem memória.
por Zelda
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Quinta-feira, Janeiro 11
Poderia ter sido eterno,
não fosse frágil.
Poderia ter sido mágico,
não fosse truque.
Poderia ter feito bem,
a despeito dos presságios.
Poderia ter sido tudo,
não fosse apenas fresta.
por Zelda
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Terça-feira, Outubro 10
Hoje só dá Caio Abreu
"...O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias...
Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu.
E basta fechar os olhos pra naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca.
...alguma coisa então pára, as coisas param.
Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas,
as estrelas que não conseguimos ver aqui no fundo da cidade escura.
Olho no poço do teu olho escuro,
meia noite em ponto.
Quero fazer um feitiço pra que nada mais volte a andar.
Quero ficar assim, no parado.
Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse me jeito de ir vivendo
como quem pula poças de lama, sem cair nelas,
mas sei que agora esse jeito se despedaça.
Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não esta completo sem o outro.
Você assopra na minha testa.
Sou só poeira, me espalho em grãs invisíveis pelos quatro cantos do quarto.
...
Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com esta fome na boca,
beber um copo de leite, molhar plantas,
...para não gritar e procurar teu cheiro outra vez no mais escondido do meu corpo,
saliva tua de ontem guardada na minha boca trocar lençóis,
agora está feito e foda-se!
... puxar cobertas, cobrir a cabeça,
...apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro,
tanto frio,
naufragar outra vez em tua boca,
reinventar no escuro do teu corpo
... e amanhã não desisto!
Te procuro em outro corpo.
Juro que um dia te encontro!
Não temos culpa. Tentei. Tentamos."
por Zelda
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Fala, Caio Fernando Abreu:
"...Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você
ou apenas aquilo que eu queria ver em você,
eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia,
e se era assim,
até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que,
no fundo,
sempre no fundo,
talvez nem fossem suas, mas minhas,
e pensava que amar era só conseguir ver,
e desamar era não mais conseguir ver, entende?
Dolorido-colorido,
estou repetindo devagar para que você possa compreender.."
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Li hoje e não resisti. Com a palavra, Mário Quintana:
"Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim.
Nem que eu faça a falta que elas me fazem,
o importante pra mim é saber que eu,
em algum momento,
fui insubstituível.
E que esse momento será inesquecível"
por Zelda
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Domingo, Julho 23
Há dois meses Mary Ju me disse que andava carente, e Mary carente é perigo iminente (será que já disse isso??). Andava em recesso imposto, porque a maré estava meio baixa pra ela.
- Também, não tenho ânimo pra sair de casa e fico esperando que caia alguém da chaminé que nem Papai Noel com saco cheio - de preferência! - em um prédio que nem chaminé tem. E sabe como é, Magda, sair à caça...
- Nem pensar, Mary Ju, que isso é fim de linha. É melhor esperar pelo Papai Noel, mesmo que de saco vazio, pois nisso dá-se um jeito.
- Ai, meu Deus, que venha logo esse Papai Noel, porque não vou agüentar esperar até o Natal...
Anteontem encontrei a Mary e, discretamente, perguntei pelo Papai Noel.
- Menina, nem te conto! Coisas que só acontecem comigo, não sei por quê...
Falou que dias depois da nossa conversa sobre Papai Noel, ela chegou a pensar que ele, apesar de ocupado com fins mais nobres, resolvera ceder aos seus apelos, pois logo apareceu um possível pretendente que, mesmo que não pretendesse muita coisa, queria o suficiente pra tirá-la do atraso.
Conheceu o moço numa situação das mais inusitadas, em plena Avenida Copacabana pedindo informação de como chegar ao Centro. Ele estava tão perdido que, pra se encontrar, chamou a Mary pra tomar um café antes de ele embarcar no coletivo, alegando que aquela hora estavam todos lotados e o trânsito ruim. Ela lembrou do que a cartomante havia dito há 15 dias, que um rapaz especial ia atravessar o seu caminho inesperadamente. Topou o café.
Com a boa vontade que só o atraso e a fantasia garantem, Mary disse que até achou o "atravessador" simpático.
Conversa vai, conversa veio e Claudio - esse era o nome do moço - falou o que devia calar, pelo menos até que ela caísse nos braços dele: era militar, morador da Vila Mimosa quando não estava no quartel em Vila Kennedy e há seis meses tinha ingressado na Igreja Universal. Revelou tudo num fôlego só. Mary quase caiu dura. "Phodeu! Agora ele vai querer me converter", pensou um minuto antes dele disparar:
"- Quer ir ao culto comigo domingo que vem? Não vou estar de serviço e você pode almoçar lá em casa".
O celular tocou na hora oportuna. Mary disse que atendeu rapidamente e aproveitou o gancho pra inventar que tinha acontecido uma emergência e precisava ir. Pediu a conta e ele o telefone dela.
"- Tenho horror a telefone! Desliguei o lá de casa há dois anos".
"- E o celular?"
"- Não tenho!"
"- Como não! E esse aí?", perguntou o moço sem entender nada.
"- Acabou de quebrar".
- E então?, perguntei a essa altura sem a menor cerimônia.
- Dei "meia volta, volver" e saí batida. Nunca mais Papai Noel me engana com presentes em pleno mês de agosto.
por MAGDA
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Segunda-feira, Julho 10
Num baile da Lapa
Inesperadamente, surge o convite para um baile pré-carnavalesco aquela noite. Pega de surpresa, mas animada de brincar o carnaval depois de muitos tempo, Mary Ju decidiu deixar o dia rolar e ver como se comportava o seu astral. Sentiu grandes possibilidades de declinar o convite. Afinal, era uma segunda-feira, magra, e havia trabalho no dia seguinte.
- Vamos nessa, Mary. Deixa de preguiça!, disse a amiga.
- Não é preguiça, Adalgisa, mas cá pra nós que é muita animação pra uma segunda-feira...
- Tô te estranhando Mary Ju. Você tá ficando é véia.
- Ah, vai à merda. Sabia que ia mexer com meus brios. Véia é o cacete. Vambora pra esse baile de mascarados. Só tem um problema: não tenho máscara.
- Te vira, Mary. Você é criativa.
Fato é que com a falta de tempo, a criatividade fica um pouco prejudicada. Mesmo assim, saiu do trabalho e foi direto pra Ipanema. Só tinha meia hora pra se decidir antes que as lojas que ainda estavam abertas fechassem. Entrou num armarinho e, pimba!, olha a máscara lá, pretinha, bem básica. Arrematou uma camélia da mesma cor , pra dar um ar dramático, e um poá igualmente preto. Saiu da loja feliz. Deu tempo.
"No mínimo, vou parecer uma viúva alegre", pensou por conta das suas aquisições. Correu pra casa porque o baile estava marcado para às 20h e ainda tinha que improvisar a fantasia.
O vestido que havia pensado - na verdade uma combinação - ficou horroroso, e mais parecia... uma combinação. Não encontrou nada no armário que se assemelhasse a uma fantasia.
Acabou apelando pra saia da filha pré-adolescente e improvisou uma blusa de um jeito que parecesse um vestido. Felizmente, encontrou uma meia arrastão comprada tempos atrás pra uma emergência (!!??). Colocou uma sandália de salto alto, prendeu a camélia no cabelo junto com uma plumas, caprichou na maquiagem e, sentindo-se poderosa, enrolou o poá no pescoço. Deu aquela olhada final no espelho, viu-se bonita mas... fantasiada de puta, e lembrou da diferença de não ter mais 20 anos. Quase amarelou, mas o pessoal de casa deu força.
- Vai fundo D. Mary, que a senhora tá a maior gata, disse a assistente de fogão.
- Mãe, você tá linda!, elogiou a filha.
Tomou coragem e ligou pra amiga :
- Tô saindo. Vou pegar um táxi e chego aí em 10 minutos.
- Você pode me ligar quando estiver chegando? Estou com a maior vergonha de ficar na portaria, tô parecendo uma puta...
- Você também, Adalgisa? Eu já praticamente incorporei, disse Mary às gargalhadas.
Pediu pra assistente descer com ela pra pegar o táxi. Na portaria, encontrou com um vizinho, disfarçou que não viu, porém não pode fazer o mesmo ao perceber o ar de riso do porteiro ao avistá-la saindo numa segunda-feira à noite com poá no pescoço e penas na cabeça. No mínimo foi uma visão surreal, nem dá pra culpar o moço.
Entrou correndo no táxi:
- Senhor, vamos pro Leme pegar uma amiga e depois pra Lapa, mas não é nada disso que está pensando!, foi se justicando Mary Ju, roxa de vergonha e se sentindo a própria galinha com aqueles adornos.
A amiga não tinha ficado pra trás. De vestido preto decotado, diversos colares dourados, pernas de fora valorizadas por uma sandália salto fino de 15 cm, saiu ela, passos largos rumo ao táxi. Como Mary, também foi entrando e se explicando:
- Nós vamos pra um baile de máscaras, moço. Eu sou casada, tenho filhos, meu marido está viajando, mas sabe que estou indo pra festa, viu?, falou como se o motorista estivesse realmente preocupado com isso.
Pararam na porta e havia uma meia dúzia de fantasiados. Se sentiram em casa apesar das suas pintas. Lá dentro encontraram o grupo de amigos e decidiram relaxar com a ajuda de uma cervejinha. Mal terminaram o segundo copo, Arnaldo, um amigo pra lá de maluco, inventou de pegar no carro umas fotos e chamou as duas.
- O carro tá aqui pertinho...
Entreolharam-se e falaram ao mesmo tempo:
- Vamos encarar?
Riram, e na mais perfeita sintonia responderam:
- Vamos!
O pertinho do Arnaldo ficava a três quarteirões dali. Quando Mary e Adalgisa se tocaram que, caracterizadas de putas passeavam rebolativas pelas ruas da Lapa, já era tarde. Um buzinaço de taxistas, seguido por "gostosas" em alto e bom som deram o alarde de que não deveriam transitar naquelas bandas - nem em outras! - vestidas em trajes de cabaré.
Adalgisa, uma sacana que não deixa por menos, disparou:
- Aí, Mary Ju, já não volta mais a pé pra casa, hein?
- Pois é, amiga, e não é que tivemos nossos 15 minutos de fama?
E gargalharam até quase faltar o ar.
POR MAGDA
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